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quinta-feira, maio 27, 2004

Entrevista com os Metrô:

Depois dos concertos no SpeakEasy e Fnac Colombo, fica a entrevista feita por um dos membros da Faixa e publicada no jornal Destak da passada semana.

Metrô - O “Déjà-Vú” inesperado

Numa época em que a maioria das bandas se viravam para o punk rock, os Metrô marcaram a diferença no panorama musical brasileiro misturando guitarras e sintetizadores. Depois do tecnopop dos anos oitenta, voltam a quebrar convenções ao apostar na “pop experimental”, com um álbum onde a bossa nova de um “Coração Vagabundo” continua a palpitar num “Beat Acelerado”.


1. Apesar do sucesso que tiveram nos anos oitenta, inicialmente não obtiveram apoio das editoras para este “regresso”. O que é que vos levou a arriscar numa edição de autor?

Dany - Tivemos convites de várias gravadoras mas para recuperar os antigos originais dos Metrô, tal como a maioria das bandas dos anos oitenta estavam a fazer. Virginie – Acontece que isso para nós não fazia sentido. Aliás, quando nos juntámos, não foi para gravar um disco e sim para nos reencontrarmos. Mas depois de ouvirem as nossas “gravações caseiras”, o Dany e o Ian acharam que fazia sentido transformá-las num disco e então resolvemos oferecer o trabalho às editoras. Como nenhuma delas entendeu que o que queríamos não era fazer um “best-off”, partimos para uma edíção de autor.

2. Lançado em 2002, “Déjà-Vú” surpreendeu ao esgotar esses cinco mil exemplares numa semana. Hoje, depois de já ter vendido muitos mais, dá-lhe vontade de cantar, como na faixa dez, “Everyone’s wrong but me”?

Virginie – Não tenho essa sensação, pelo menos num sentido mais negativo de mostrar aos outros que nós é que estávamos certos. Até porque nada neste trabalho tem sido feito a pensar noutra coisa que não seja a música e o prazer que tiramos dela. Por outro lado, é claro que fiquei extremamente satisfeita por verificar que uma coisa que tem tanto de nós é bem recebida pelos outros. Basicamente o que procurámos com este disco foi passar bons sentimentos para as pessoas. Talvez por isso elas nos abordem de uma maneira tão generosa, de coração aberto. Aqui em Lisboa então nem se fala!

3 – Para além deste tema de Ella Fitzegerald também foram buscar ao baú êxitos do primeiro álbum, como “Sândalo de Dândi” ou “Jhonny Love”. Porquê este “déjà-vú”?

Virginie – Como tudo neste trabalho, acabou por acontecer de uma maneira natural. Andámos algum tempo oscilando entre o sim e o não, entre tocar e não tocar alguns originais - até porque o nosso objectivo não era “regressar ao passado” - mas depois acabámos por pensar: porque não? Fazem parte da nossa vida, do nosso percurso e são músicas muito especiais para nós. Dany – Era quase um tabú para nós mexer nelas, mas ainda bem que o fizémos porque foi óptimo redescobri-las.

4 – Vinte anos depois do êxito que foi “Olhar”, voltam a surpreender com um “Déjà-vú” inesperado. O que é que mudou entretanto?

Dany – Tudo, sem sombra de dúvida. Virginie – Creio que essencialmente aprendemos a privilegiar o silêncio. Na época não, tínhamos de preencher todos os espaços. Éramos jovens, saltitantes e cheios de energia e agora já caminhámos desse extremo até um lugar de maior equilíbrio. Nos shows, ao vivo, acho que temos muita energia, mas penso que é mais controlada, mais atempada, aprendemos a respeitar mais o ritmo da própria música. Como diz na música, “coração ligado, beat acelerado”, mas agora com uma batida um pouco mais tranquila.

5 –A ideia continua a ser a de estarem “abertos a novos estilo sem complicar” como dizia Alec - um dos “Metrô originais” - nos anos oitenta?

Dany – Sim, com toda a certeza. Eu acho que vamos procurando a simplicidade, a síntese, através de várias sonoridades e estilos Virginie – Acho que hoje em dia temos não só uma maior segurança técnica como maior maturidade, e talvez isso nos permita estar mais perto dessa “simplicidade”. Porque nos liberta, permitindo-nos uma maior concentração na interacção com o público e no próprio momento em si. Agora é apenas acerca de nós os três, da felicidade de estarmos juntos a fazer música, já sem o peso da responsabilidade de ter uma equipe de mais de vinte pessoas dependentes de nós ou de querer cumprir a rigidez musical do tecno-pop que fazíamos nos anos oitenta.

6– Qual é sensação de voltarem aos palcos tanto tempo depois?

Virginie – É bom. Muito muito bom. Porque uma coisa é ter algumas notícias do modo como o disco está a ser recebido, e outra é ter oportunidade de ir até aos sítios ver e sentir o que realmente se passa. E não há melhor maneira de o saber do que através dos concertos e da interacção real com as pessoas.

7 – E a de ver misturarem-se no público antigos fãs, hoje com mais de trinta anos, com gerações mais novas que vos descobrem pela primeira vez?

Virginie - Como uma pessoa que teve que abandonar o seu país e a sua cultura de origem aos 33 anos, porque o meu marido é diplomata, a minha ânsia na vida é comunicar. Então torna-se realmente muito especial sentir e saber que essa comunicação acontece nos concertos e com pessoas de todas as idades. E isso é uma coisa que pudemos verificar não só no Brasil, onde tínhamos gente dos vinte aos sessenta e cinco, mas também na Europa, onde não há essa referência dos “Metrô”. Apesar dos públicos serem sempre diferentes a mensagem tem sempre passado, e não há nada mais gratificante do que isso.

7 – O que é que significa actuar em Portugal para uma banda que, depois da saída de Virginie em 1986, continuou com um português, Pedro d’Orey, actualmente vocalista dos Wordsong?

Virginie – Para mim foi extremamente importante porque associei a pessoa do Pedro, durante muito tempo, a um momento triste, que foi o da minha separação dos Metrô. O Pedro entra como vocalista precisamente depois de eu sair da banda, e foi difícil vê-la continuar e até gravar um àlbum - A Mão de Mao - sem mim. Poder encontrá-lo e cantar com ele no concerto que demos no Speakeasy permitiu-me mudar isso. E é muito bom ver que ele é tão querido pelas pessoas cá porque, para nós, o Pedro é muito especial.

8 - Depois da “Mão de Mao” seguiram todos caminhos diferente: Virginie foi para África, Dany foi para a Bélgica… Tendo em conta essa diversidade de percursos, o que é que o publico pode esperar deste “Déjà-Vú”?

Dany –É o resultado, uma fusão de todos desses percursos, desses dezoito anos de viagens e experiências. Virginie – E também do contacto com pessoas como o André, que se juntou agora aos Metrô, bem como com todos os outros convidados. Nunca somos nós sozinhos, como tal acaba por ser isso mesmo, um reencontro e simultaneamente algo em mutação. Porque a música é algo em permanente construcção, à medidade que a vamos experimentando e tocando, ela vai traçando o seu caminho. Tem uma dinâmica própria por isso o que as pessoas podem esperar é isso mesmo, um processo de movimento constante.

9 – Pensam continuar a trabalhar juntos?

Virginie – O André e o Danny já estão com um projecto “no casulo”. Eles estão no mesmo país o que já ajuda bastante. Ainda que eu estar longe não seja impeditivo acaba por complicar um bocadinho as coisas. No entanto, para o ano, se a profissão do meu marido permitir, pode ser que regresse ao Brasil, por isso o futuro é algo que está, de certa forma, em aberto. Até porque gravámos e filmámos tanto material durante esta tournée que já poderíamos fazer outro disco. No fundo lá está, não fazemos esse tipo de planos. Enquanto for bom, enquanto todos sentirmos essa experiência como positiva e gratificante, vamos continuar a ir onde a música nos levar.

Por: Inês Marques



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